Assistir à um filme de Yorgos Lanthimos é sempre uma experiência singular (mesmo que, às vezes, incômoda).

O cineasta grego vêm ganhando destaque nas telonas pelos seus trabalhos peculiares. Seu sucesso começou com “Dente Canino”, longa vencedor do prêmio de melhor filme em uma das principais mostras do Festival de Cannes, e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Mas é com “O Lagosta” que Yorgos fica mais conhecido, vencendo o prêmio de Júri no Festival de Cannes, além da indicação ao Oscar de melhor roteiro original, entre tantas outras premiações.

Com tanto destaque, Yorgos traz em seu novo trabalho em Hollywood, um filme cheio de simbologias agregados à um terror psicológico incômodo.

s5O longa conta a história de Steven (Colin Farrell), um cirurgião renomado, casado com Anna (Nicole Kidman), que também é médica. A família integra ainda a filha mais velha, Kim (Raffey Cassidy), e o caçula, Bob (Sunny Suljic). Tudo parece perfeito, até a chegada de Martin (Barry Keoghan). Martin é filho de um paciente que morreu em uma cirurgia de Steven. Em um misto de pena e culpa, Steven decide então se aproximar do garoto, a fim de cuidar e protegê-lo. Steven leva Martin para conhecer sua família, e a relação de todos a partir daí se intesifica e entra em uma espiral de tragédia.

Combinando elementos da cultura grega, como a Ifigénia em Áulide, e do cristianismo, o roteiro de Lanthimos e Efthymis Filippou expõe as falhas de uma família aparentemente perfeita, mas que é capaz de fazer qualquer coisa quando posto à situações extremas. Misturado com isso, temos uma fotografia impecável de Thimios Bakatakis, onde os ambientes (principalmente o hospital) são montados para transparecer toda a frieza que vivem os personagens. Os planos contínuos, em ângulos que variam entre superiores e inferiores, aliados à uma trilha sonora forte e marcante, dão a sensação de todo o terror que rege a história.

s2Outro ponto característico de Lanthimos, assim como vimos em “O Lagosta”, é o fato dos principais personagens falarem em tons baixos e sem nenhuma emoção, expressão e sentimento. Todos agem, reagem e respondem de forma robótica, programada, como se estivessem em uma sintonia totalmente diferente da realidade.

As atuações, então, são perfeitas. Farrell entrega um personagem frio, que não assume seus erros, e muito menos se responsabiliza pelos atos cometidos, sempre tentando colocar a culpa nas outras pessoas. Kidman faz uma personagem também fria, mas que consegue transmitir certas emoções pontuais, dando drama aos acontecimentos. Mas é Keoghan que brilha no longa. Em uma atuação perfeita, o jovem entrega um personagem com muitas nuances. De início, vemos um garoto fragilizado, ainda sentido pela perda do pai, mas que ao decorrer da película, esse mesmo garoto mostra todo seu lado sociopata, intercalando momentos de inocência com o terror psicológico que coloca na família.

s4Yorgos Lanthimos é diferente, busca criar filmes simbólicos e que fogem do padrão hollywoodiano que estamos acostumados a ver. O Sacrifício do Cervo Sagrado segue o alto nível dos seus últimos trabalhos e é uma ótima pedida para quem quer fugir um pouco do comum.

O Sacrifício do Cervo Sagrado estreou dia 8 de Fevereiro no país.

O Sacrifício do Cervo Sagrado